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Mulheres no imobiliário: “Queremos humanizar o setor”

Aumentar a visibilidade feminina na fileira do imobiliário e da construção é o objetivo da WIRE Portugal.

07/09/2026

Mulheres no imobiliário: “Queremos humanizar o setor”
Susana Pascoal, Presidente Executiva WIRE

As mulheres estão cada vez mais presentes no imobiliário e na construção, mas quantidade não é sinónimo de participação. Numa altura em que a diversidade ganha espaço, o desafio passa por garantir-lhes uma voz mais ativa, sobretudo nos lugares de decisão.Tornar o setor mais inclusivo, ágil e disruptivo – mas também menos cinzento e mais humanista, trazendo para cima da mesa o debate de vários temas – requer atração e retenção de talento, criando novas referências para as gerações que chegam.

“Queremos que mais jovens mulheres possam olhar para o setor e diferentes profissões e pensar: "Eu sou capaz e eu pertenço a esta realidade”. É esse o sonho. E tudo faremos para conseguir chegar lá”, diz Susana Pascoal, nova Presidente Executiva da WIRE Portugal, ao idealista/news. 

A responsável reconhece que o mercado vive um momento de grande mudança, até de viragem, com novos diplomas e regras fiscais, além da industrialização e acelerar da inteligência artificial, mas que, ao mesmo tempo, continua a ter de enfrentar um problema estrutural e que é preciso resolver: a falta de mão de obra. “Acho que existe uma necessidade de recrutamento de talento no seu geral. O setor tem de se tornar mais apelativo e criar cada vez mais condições para atrair esse talento”, refere.

“Não sei se alguém, enquanto está a fazer o seu curso, qualquer que seja a sua área, pensa: ‘Vou trabalhar no setor da construção ou imobiliário’. E essa é a primeira coisa que deve ser mudada: a perceção das pessoas sobre a atratividade do setor. Cabe-nos a todos nós, à WIRE e a outras associações, construir e alterar essa perceção”, defende, acrescentando que, no caso do recrutamento de talento feminino, falta ainda algo fundamental, que são as referências. 

Além formação, programas de mentoring e networking, o foco da WIRE é a criação de relações de confiança e partilha de conhecimento, procurando parcerias estratégicas que cruzem a academia, a sociedade e o setor, promovendo iniciativas que permitam “pensar fora da caixa” e  “trazer uma visão mais humanista” ao universo da construção e imobiliário. 

Numa altura em que se fala cada vez mais de diversidade no setor imobiliário, qual é, na sua perspetiva, o principal desafio das mulheres neste mercado?

Assumo, neste novo mandato 2026-2029, a presidência executiva da WIRE. Temos também uma presidente fundadora, a Filipa Arantes Pedroso. O que reformulámos neste novo mandato foi precisamente a existência de uma nova figura, a de presidente executiva, que assumo agora.

Costumo dizer que a WIRE surgiu não porque houvesse poucas mulheres no setor, mas porque não havia correspondência entre o número de mulheres que já trabalhavam no setor e a visibilidade que tinham. A WIRE nasceu, portanto, da necessidade de lhes dar mais visibilidade, de poderem ser uma referência, de terem voz e de estarem cada vez mais presentes nos lugares onde são tomadas as decisões. 

A WIRE é um espaço de partilha e de conhecimento num dos setores que está em maior ebulição, com todas as transformações que estão a acontecer. É também um setor que representa uma parcela muito significativa da economia portuguesa e que é absolutamente transversal e, sobretudo, interdependente.

A WIRE é um espaço de partilha e de conhecimento num dos setores que está em maior ebulição, com todas as transformações que estão a acontecer

Desde arquitetas e engenheiras a profissionais da área financeira, dos seguros e de tantas outras áreas, todas contribuem e são necessárias para que o setor evolua. Trazer diversidade ao mercado parece-nos, por isso, essencial para que o setor evolua como precisa de evoluir.

Apesar de existirem cada vez mais mulheres no setor, muitos cargos de decisão continuam associados aos homens, nomeadamente na promoção imobiliária e na construção. Por que é que esta realidade tem mudado tão lentamente?

Acho que houve uma evolução e, claramente, essa evolução foi de presença. Se hoje olharmos para o setor, temos mais mulheres nos cargos que acabou de referir. Mas presença não é a mesma coisa que participação. Ou seja, há mais quantidade, mas as mulheres continuam a não participar, na mesma proporção, nas decisões estratégicas.

É essa narrativa que temos de mudar, porque as perceções mudam com uma nova narrativa. Enquanto essa narrativa não for construída e consolidada, esse é precisamente o papel da WIRE: reunir estas mulheres e criar um grupo que construa uma nova narrativa, diferente da tradicional. É esta construção que vai permitir começar a mudar perceções e, se calhar, passarmos a falar de arquitetas e não apenas de arquitetos. De facto, a realidade neste momento também é muito feita de arquitetas, engenheiras e gestoras.

Há mais quantidade, mas as mulheres continuam a não participar, na mesma proporção, nas decisões estratégicas

Como digo, a presença aumentou, mas a participação ainda está num nível muito abaixo daquele que nos parece que deveria estar. É por isso que a WIRE é tão importante enquanto associação.

Há uma preocupação crescente com a retenção de talento no imobiliário e na construção. A construção, por exemplo, debate-se com falta de mão de obra e continua a estar pouco associada ao universo feminino. O setor está a conseguir criar condições para atrair mais mulheres, não apenas para cargos de liderança?

Antes de falar de talento, acho que é importante que o setor altere a perceção das pessoas, no sentido de o tornar apelativo.

A perceção que muitas pessoas têm do setor não corresponde àquilo que é a realidade atualmente. Estamos a falar de um setor em constante mudança, que tem feito, nos últimos anos, um caminho muito visível de transformação e inovação. Falamos de industrialização, por exemplo. É um setor com uma abrangência e uma atratividade que acho que ainda não são percecionadas pelo mercado como tal.

Não sei se alguém, enquanto está a fazer o seu curso, qualquer que seja a sua área, pensa: "Vou trabalhar no setor da construção". E essa é a primeira coisa que deve ser mudada: a perceção das pessoas sobre a atratividade do setor. Cabe-nos a todos nós, à WIRE e a outras associações, construir e alterar essa perceção. 

Por outro lado, antes de falar de recrutamento de talento no feminino, acho que existe uma necessidade de recrutamento de talento no seu geral. O setor tem de se tornar mais apelativo e criar cada vez mais condições para atrair esse talento.

No caso do talento feminino, acho que falta também algo fundamental para atrair mulheres: referências. É preciso posicionar cada vez mais mulheres em áreas relevantes do setor, em grandes projetos, como presidentes ou em cargos de liderança. São essas referências que vão permitir que jovens mulheres olhem para o setor e pensem: "Se isto é importante e se conseguimos lá chegar, então vamos lá e vamos fazer o nosso melhor."

Esta ausência de referências também é impeditiva de que novas pessoas olhem para o setor e vejam estes cargos como apelativos. É algo que a WIRE tem como missão trabalhar. Por isso, damos também muita importância às referências numa perspetiva intergeracional.

Como é que a WIRE dá resposta a esse desafio de criar figuras de referência? Pode também funcionar como uma porta de entrada para mais mulheres no setor, através do networking e da própria rede de contactos?

Um dos pilares da WIRE é, de facto, constituir uma rede de networking. E aqui entenda-se networking não como uma simples troca de cartões de visita ou como um exercício de "quem é quem", mas como um espaço de confiança e segurança, onde são geradas relações de confiança e, acima de tudo, muita partilha de conhecimento. 

Fizemos, no início deste mandato, um inquérito a todas as “WIRE’s”. Temos mais de 100 associadas e é difícil saber, na direção, o que se pretende sem ouvirmos aquelas que são as nossas associadas.

Distinguimos claramente três grandes pilares de atuação. Por um lado, existe esta vontade de saber mais, tudo o que tenha a ver com liderança, gestão e procura de conhecimento. É muito importante para as WIREs saberem mais e estarem à frente das melhores práticas e das tendências do mercado.

Se pensarmos bem, as mulheres representam praticamente 50% da força de trabalho e, de uma maneira geral, essa força de trabalho está altamente qualificada. 

Por outro lado, existe este espaço de networking, onde podem trabalhar o conceito de confiança e de comunidade. Acima de tudo, uma comunidade de partilha e de geração de referências. Como é que posso oferecer uma oportunidade a alguém se não a conhecer? Se não tiver uma noção do valor que essa pessoa pode aportar ao mercado?

E, portanto, aquilo que vejo na associação e no conjunto das “WIRE’s” não é apenas o que a WIRE pode fazer por elas, mas, acima de tudo, de que forma é que elas podem contribuir para que este seja um setor mais inclusivo, mais ágil e mais disruptivo.

Se pensarmos bem, as mulheres representam praticamente 50% da força de trabalho e, de uma maneira geral, essa força de trabalho está altamente qualificada. Um setor que não aproveite aquilo que representa 50% da sua força de trabalho, altamente qualificada, está a desperdiçar algo que nenhum setor se pode dar ao luxo de desperdiçar neste momento: a capacidade de aportar novos ângulos, novas perspetivas e, por fim, chegar a outras tipologias de solução. 

Ouvindo as associadas da WIRE, quais são hoje as suas principais preocupações? Que realidade lhe transmitem no terreno, tendo em conta o atual contexto económico, geopolítico e as mudanças no imobiliário e na construção?

O mercado está, neste momento, numa grande mudança, numa viragem, com um sem número de novos diplomas e novas regras fiscais, para não lhes chamar apenas leis. Existe, portanto, uma necessidade clara de o mercado se adaptar.

Depois, o mercado continua a viver realidades como a falta de mão de obra. Mas eu gostava mais de falar em falta de talento, porque acho que é aí que os problemas se resolvem: quando existe talento para procurar soluções diferenciadas. O setor está a braços com uma nova industrialização e com a inteligência artificial, entre um sem número de outras mudanças que afetam todos os setores, mas este em particular. 

Aquilo que todas as associadas expressam é a necessidade de ter conhecimento sobre tudo isto que está a acontecer e a capacidade de dialogar, de forma a obter visões diferenciadas e, obviamente, poder contribuir para as decisões. É uma necessidade do mercado e é um desejo nosso que as mulheres possam ser ouvidas nos locais onde as decisões são tomadas.

Costumo dizer muitas vezes, e estamos ainda no início do mandato, que os maiores arranha-céus, quando são visíveis, tiveram na base grandes e profundas fundações. E é normal que, enquanto estamos a criar as fundações, elas possam não ter tanta visibilidade. As fundações que estamos a criar neste momento passam também por parcerias estratégicas e por trazer aqui um binómio entre a academia, a sociedade e o setor. Queremos confluir todos esses contributos e essas visões para dentro da WIRE.

A WIRE é composta por mulheres e o critério de acesso à associação, nesta fase, passa claramente por mulheres em cargos de direção ou superiores. E a liderança, como todas sabemos, é solitária. Portanto, este espaço de networking permite também esta discussão, acreditando que teremos a capacidade de impactar de forma diferenciada as empresas onde estamos e o setor no seu geral. É também isto que é tão importante para nós.

Depois, há algo que nos dá muito orgulho: termos a capacidade de começar a construir aquilo que será o nosso legado. Temos programas de mentoring onde jovens mulheres dos mais diversos setores contactam com as suas mentoras, permitindo-lhes ter acesso a diferentes visões, boas práticas e partilha de experiências.

Quais são as principais metas e objetivos que gostaria de atingir neste mandato? E que iniciativas estão a ser promovidas?

Diferenciaria aqui as metas dos objetivos e do sonho ou da aspiração. Relativamente às metas, temos estado claramente a identificar parcerias estratégicas que nos possam ajudar a acelerar todo este movimento de partilha e aquisição de conhecimento, de aporte de novas perspetivas e, simultaneamente, de visibilidade.

Cada vez que vamos ter com instituições, como agora fizemos, estamos também a levar a marca e a WIRE para essa realidade. Portanto, existe aqui um duplo efeito de visibilidade, associado a este pilar de aportar valor às associadas, para que possamos depois aportar outro tipo de valor.

Temos programas de mentoring e programas de estágio para jovens mulheres, que lhes permitem estagiar em empresas e ter o primeiro contacto com o mundo empresarial. São metas que já estão a acontecer e que fazem parte dos objetivos para este ano. 

Portanto, termos aqui também a capacidade de realizar eventos muito associados ao setor, mas intercalando esses eventos setoriais com iniciativas que nos permitam pensar fora da caixa. Por exemplo, como é que a arquitetura se projeta na neurociência na forma como as pessoas vivem os seus espaços? Independentemente do setor, acho que esse é um tema muito importante. 

Setor da construção é onde habitamos, onde vivemos, onde vive a nossa família, onde temos relações. Tudo isto é feito para pessoas, por pessoas e para pessoas. Trazer esta visão mais humanista àquilo que é, muitas vezes, visto como um setor mais cinzento é outro dos temas que queremos trazer.

Setor da construção é onde habitamos, onde vivemos, onde vive a nossa família, onde temos relações. Tudo isto é feito para pessoas, por pessoas e para pessoas.

Vamos, portanto, intercalando os nossos eventos com iniciativas ligadas ao setor e outras que nos permitam abrir um pouco o mindset. Se estivermos sempre a falar do mesmo e não nos expusermos a algo diferente, dificilmente evoluímos.

Temos esta preocupação de olhar para a mulher como um todo, com diferentes vertentes, e trazer isso às nossas associadas.

Em termos de objetivo, queremos também aproximar-nos das entidades institucionais e levar a WIRE a esses espaços. Numa primeira fase, enquanto marca e enquanto presença, penso que isso já está um bocadinho conquistado. Mas queremos agora dar a perceber o valor que a WIRE pode trazer à tomada de decisão, como uma visão complementar ou diferente de tudo aquilo que já existe.

Esse é um objetivo que eventualmente terá início este ano, mas que se prolongará no tempo. O objetivo claramente, queremos levar a presença da WIRE aos lugares onde existe participação e onde são tomadas decisões.

O sonho é que a WIRE possa crescer e que a sua referência e o seu impacto no setor e na sociedade vão muito para lá da própria associação. Queremos olhar para trás e perceber que o nosso legado se traduz numa alteração da perceção, mas também em dados concretos. É muito importante que tudo isto tenha um critério de objetividade.

O sonho é podermos olhar para trás e perceber que estes primeiros mandatos da WIRE tiveram, de facto, um contributo relevante para o setor, quer ao nível das ideias que ajudámos a colocar na agenda, quer dos projetos que ajudámos a concretizar e a decidir.

E, acima de tudo, queremos criar referências para que jovens mulheres possam olhar para o setor, possam olhar para estes cargos e pensar: "Eu sou capaz e eu pertenço a esta realidade. "É esse o sonho. E tudo faremos para conseguir chegar lá.

Artigo publicado no Idealista News de autoria de Leonor Santos , Gonçalo Lopes : https://www.idealista.pt/news/imobiliario/habitacao/2026/08/25/77126-mulheres-no-imobiliario-queremos-humanizar-o-setor